Poderes Ocultos – Capítulo 11: Paciente
by Joder Filho
A atendente chorava sozinha.
Como tantas outras noites de sua vida, a jovem se via perdida, sem respostas e com o coração apertado, orando pra que tudo aquilo acabasse logo. Em geral, adormecia assim, embalada pelas lágrimas, esperando que o dia simplesmente viesse e que os raios do sol e a luz magicamente mandassem embora todo e qualquer problema.
Sentada sozinha em sua cadeira, praguejava contra si mesma, lamentando o fato de não estar lá. Ela deveria cuidar dele, afinal, ele sempre esteve lá por ela.
Ainda enxugava as lágrimas quando as duas irromperam pela porta, carregando pelos braços um rapaz desacordado. Elas já vinham pedindo ajuda a todos e pareciam desesperadas, quando a atendente correu para acudi-las. Read more
Poderes Ocultos – Capítulo 10: As Peças do Jogo

by Joder Filho
A sensação que sentia era inebriante. Quanto mais experimentava, mais queria, e mais temia o que viria a receber. Era tanto poder. Tão imenso e ao mesmo tempo tão desconhecido.
Augusto tinha certeza de que o garoto era poderoso. Todos eram. E também sabia que ele se destacaria dentre todos. Mas aquilo era inimaginável. O garoto possuía poderes maiores do que os seus, e alem da compreensão do sacerdote. Era claro que Deus deveria ter um propósito muito especial para ele. Ainda não sabia como e nem porque, mas Deus transformara aquele reles garoto numa arma de batalha nunca antes vista. Alguém que todos temeriam. Inclusive Augusto. Aquilo era maravilhoso e ainda assim, imensamente perigoso. Ele precisava domar o garoto. Precisava dobrá-lo aos seus preceitos e fazer dele uma ferramenta sob seu comando. Era isso que queria, era isso que precisava. E nada, nem ninguém iria atrapalhá-lo em sua empreitada. Nem mesmo Deus. Read more
Poderes Ocultos – Capítulo 9: Sob Controle
by Joder Filho
O ar lhe fugia dos pulmões. Sentia o medo se formar na barriga ao mesmo tempo em que a confusão se gerava no cérebro, como gêmeos malditos de um pesadelo sem fim. Piscou os olhos várias vezes na esperança de que fosse só sua visão embaçada. Inútil. Suas mãos e braços tremiam compulsivamente. Tentou novamente se pôr de pé, mas as pernas não paravam no lugar.
Afastou-se arrastando tentando fugir do reflexo na poça. Encostada numa parede do beco, Ângela sentiu vontade de chorar, mas, incrivelmente, as lagrimas não desciam. Era como se ela não soubesse mais fazer nada. Não conseguia andar ou se colocar de pé, não conseguia parar de tremer, e o mais triste de tudo, não conseguia chorar. Era o poder! Só podia ser isso. Essa era a resposta pra toda aquela insanidade que a acometia.
Larissa havia dito que ela possuía pessoas. Era seu dom. Tentou se lembrar do que acontecera antes de apagar. Lembrou-se de Larissa saindo do beco. Lembrou-se da confusão em sua mente. E, finalmente, lembrou-se de Jairo. Lembrou dele sorrindo para ela e do quanto aquilo confortara seu coração. Ele a estendeu a mão, ela o tocou e tudo ficou escuro. Agora sabia o que havia acontecido. O dom fora despertado. Ela tomara posse do corpo de Jairo como os demônios e assombrações dos filmes de terror faziam. Ela queria sair. Queria acabar com aquilo e sua mente perdida formulava perguntas mais rápido do que conseguia responder qualquer uma delas. Como sair dali? Se havia mesmo possuído Jairo, o que teria acontecido com o rapaz? Se ela estava no corpo dele, onde estaria o dela? Como reverter o processo? E se não houvesse volta?
Ainda estava aturdida com tudo aquilo quando sentiu uma presença além da sua no beco. Virou a cabeça assustada e se deparou com Larissa encarando-a com uma sobrancelha levantada, como se tentasse entender tudo aquilo. Read more
Poderes Ocultos – Capítulo 8: Empatia

by Joder Filho
Susana estava cada vez mais animada com o que via. Diogo acabara de liberar uma descarga potente de energia elétrica no chão que, incrivelmente, não machucou nenhum deles, a não ser o próprio rapaz que foi arremessado longe com o coice do disparo. Felizmente, não quebrou nada e não se feriu muito. Só alguns arranhões e o braço que ainda doía.
Como Augusto explicara, o poder de Diogo era manifestado em forma de energia elétrica. Curiosamente, era manipulado pelas emoções do rapaz.
– Como você não queria machucar nenhum de nós – Augusto explicou enquanto ele se recuperava – você não o fez. É como se o raio obedecesse ao seu instinto e à sua vontade. Assim que aprender a focá-lo e controlar o nível de energia liberado, você será formidável, meu rapaz. Formidável. – repetiu empolgado.
– Como você sabe tudo isso? – ele tentava se colocar em pé.
– Deus, meu filho. Deus! Ele me mostra tudo o que preciso saber sobre vocês. – ele apoiou o braço de Diogo em seu ombro e foram para um banco no canto – Acredito que esse seja meu dom. Descobrir o de vocês. Além de outras coisas menores.
– Enquanto ele tá nessa – Arnaldo se intrometeu – tem como mostrar o nosso? – perguntou apontando para si mesmo e para Susana alternadamente. Read more
Poderes Ocultos – Capítulo 7: O Que Comanda As Tempestades

por Joder Filho
Era a coisa mais incrível que Diogo já presenciara. Ele, embasbacado com o que presenciava, sorria boquiaberto com tudo aquilo. Após Augusto e Susana terem buscado o rapaz naquela manhã, passaram em frente a um hotel barato onde outro rapaz de uns dezessete anos aguardava. Sua única bagagem era uma mochila surrada de aparência questionável. Como antes, Augusto desceu do carro, cumprimentou o garoto e levou-o ao veículo. Diogo teve a impressão de que o reverendo foi menos cordial com o garoto do que com ele, mas não chegou a se incomodar com isso.
– Esse é Arnaldo – disse Augusto enquanto afivelava o cinto do banco do condutor – Esses são Diogo e Susana, seus novos companheiros.
– Oi – Diogo usou o tom mais cordial que conseguiu, mas em resposta só recebeu um aceno de cabeça. Arnaldo desviou o olhar para fora do carro, isolando-se do contato inicial com os colegas.
Augusto cantarolava enquanto dirigia. Ninguém conversou, ou arriscou conversar muito. O único assunto que tinham em mente agora era sobre o chamado divino e quanto a isso, Augusto foi enfático “Conversaremos quando chegar a hora.” Sendo assim, não sobrou muito para se fazer. Arnaldo pôs o par de fones de ouvido, algo que Diogo julgava inútil, uma vez que conseguia ouvir os riffs ensandecidos e bateria sendo espancada graças ao volume do mp4. Concentrou-se então na estrada. Tentava assimilar o que tinha acontecido e o que viria a seguir.
– Então, o que você faz de vida? – a voz de Susana o abordou num sobressalto. Ele a olhou por cima do ombro, mas ela não pareceu ter notado que o pegara de surpresa. Ou isso, ou se divertia muito com o fato. De qualquer forma, ele respondeu com um “han?” como se não tivesse ouvido a pergunta. – O que faz da via? – ela repetiu.
– Ah, eu sou programador de sistemas. – ele disse tímido.
– Maneiro – ela remendou o encarando. – Senão fosse o câncer, eu teria escolhido algo nas Artes – ela disse admirando as próprias unhas.
– Câncer? – ele arriscou. Read more
Poderes Ocultos – Capítulo 6: Descobertas

por Joder Filho
Jairo não podia acreditar. Na verdade não sabia se não podia ou se não queria, mas no momento não fazia a menor diferença. O que estava prestes a fazer era pura loucura. Tentou botar a cabeça no lugar pela enésima vez. Na tarde do dia anterior, teve a visão; à noite, constatou que era real; e agora, pra seu desespero, já era de manhã cedo e ele estava se preparando para invadir um hospital psiquiátrico. Larissa se comprometeu a revelar os dons dele e de Ângela se eles se dispusessem a resgatar um último integrante. Esse, de acordo com ela, era um teste. “Não faz sentido!” ele protestava em meio aos pensamentos e dúvidas que dançavam numa ciranda psicodélica em sua cabeça. “Se esse deus dá os dons e sabe de tudo, porque precisa de um teste?” Teve receio de verbalizar tais palavras. Já lidara com crentes antes e Larissa era uma, ou pelo menos parecia uma. E a resposta seria a de sempre: “Deus sabe o que faz.” Se remexeu no banco da frente do carro mais uma vez. Ângela, que cochilava no banco de trás, fez menção de que iria acordar, mas simplesmente virou o corpo e voltou a dormir. Jairo reparou nela pelo retrovisor. Era de fato linda, embora não se arrumasse. Não passava muita maquiagem, nem escolhia roupas da moda. Se resolvesse se arrumar um pouquinho mais, seria de fato um mulherão.
Uma batida de leve no vidro o assustou e arrastou-o de volta para a manhã fria. Larissa fez sinal para que ele destravasse a porta para entrar. Ele puxou a trava do seu lado e a outra porta se destrancou. Larissa entrou junto com uma lufada do frio matinal. Sentou-se esfregando os braços e já foi despejando as notícias:
– É não vai ser fácil – ela disse olhando para o edifício de onde acabara de sair. – A segurança dos caras é profissional. Dois guardas por corredor. Sem contar que… – ela se virou pra dizer, mas não completou a frase. Ao invés disso, deu um meio sorriso e ficou encarando Jairo. Read more
Poderes Ocultos – Capítulo 4: Poder

por Joder Filho
Jairo abotoou a jaqueta escura e olhou o relógio mais uma vez. “Oito horas da noite” – pensou – “Devo estar ficando bobo”. Fitou o parque longamente, deixando o pensamento vagar. Não importava no que pensasse, tudo o que lhe vinha à cabeça era a visão. Só podia ser loucura. Não cria em Deus e nem em visões e profecias. Porque então, logo ele, teria uma alucinação daquelas? De fato havia bebido muito na noite anterior, mas já passara por todas as coisas possíveis causadas pelo álcool, de risadas imbecis à coma alcoólico e convulsões, e sabia que visões celestiais não estavam dentre os efeitos.
“É besteira” – pensou. Deu meia volta em direção a onde estacionara o carro e foi então que algo lhe chamou a atenção. Enquanto se virava, Jairo teve a impressão de que alguém o observava de longe. Estacou na posição fingindo olhar os bolsos à procura de suas chaves e olhou por cima do ombro. Uma figura se esgueirava por detrás de uma velha mangueira. Dessa vez ele respirou fundo, tomou coragem e se virou encarando o vulto. Não podia ver seus olhos, mas sabia que o estranho o fitava. Era o bastante para intimidar. Ficou assim por alguns segundos até que, timidamente, uma garota de no máximo vinte e poucos anos caminhou até perto de onde ele estava. Read more
Poderes Ocultos – Capítulo 3: Laços

by Joder Filho
Susana terminava de se perfumar e arrumar a cama quando bateram à porta de seu quarto. Ela não costumava deixá-la fechada, mas hoje acordara diferente. Hoje despertara para um mundo que há muito não conhecia. Era uma mudança súbita e não poderia assustar os outros com isso. Ela mesma teria se assustado se Deus não tivesse avisado-a no sonho.
O sonho.
Toda vez que se lembrava dele, e ela fazia isso constantemente, sorria e ficava a imaginar o que viria pela frente. Deus a agraciara. Ele fora benigno e misericordioso com ela. Ele a curou do câncer. De fato, um milagre. Assim que Diná saíra de seu quarto, ela trancou a porta e se encaminhou para o banho. Ao entrar debaixo da água quente, sentiu uma renovação. Forças percorriam seu corpo. Não forças comuns, mas sobrenaturais. Forças divinas. Passou a mão pela cabeça e teve que abafar o grito, tamanho o susto que tomara. A superfície lisa de sua cabeça desaparecera. A calvície sumira. Em seu lugar, longas madeixas ruivas entrelaçavam seus dedos – seu cabelo. Todo aquele que havia perdido graças ao câncer e a quimioterapia estava ali, de volta em seu lugar, do tamanho que era antes, e lindo como sempre fora. As mechas cor de fogo pela qual sempre fora elogiada pendiam de sua cabeça até as costas agora e ela as sentia molhando com a água quente da ducha. Chorava de alegria e agradecia a Deus em seus pensamentos. Ele cumprira sua promessa. Agora era a vez dela. Faria tudo que Ele dissera. Descobriria seus novos poderes e aprenderia a utilizá-los o mais rápido e eficientemente possível. Deus precisaria de seus acólitos fortes e treinados quando a hora chegasse, e ela seria uma soldada perfeita. De fato, seria a mão esquerda do Criador. Read more
Poderes Ocultos – Capítulo 2: Encontro
by Joder Filho
Fogos de artifício. Espirais brilhantes. Fotos flutuantes e móveis. Eram as únicas coisas que passavam pela mente de Larissa naquele momento. Os sentidos aguçados e, ao mesmo tempo, a cabeça leve, como se boiasse no espaço. Aquela droga era boa; a viagem, excitante. Ainda bem, porque pelo preço que pagara tinha que valer pelo menos o esforço de roubar o televisor. Pela manhã, seus pais dariam falta dele e ela diria que roubaram. “Não estou mentindo”, pensou. “Só não estou contando que fui EU quem roubou”. Ainda bem que seus pais eram ricos. Comprariam outro logo. Nem suspeitavam que ela fosse viciada. De acordo com ela, não era bem um vício, era um hobby. Dizia a todos que poderia parar quando quisesse, mas não parava porque ainda “não queria”. Usava a heroína para se distrair, desestressar e esquecer os problemas por alguns minutos. Outra mentira, uma vez que a depressão que vinha depois do barato quase a matava. Chorava, pedia perdão a Deus e a seus pais e prometia a si mesma que pararia. Mais mentiras. E era assim que vivia Larissa. De mentira em mentira construíra sua vida, como num castelo de cartas imaginário. Mal sabia ela que aquilo estava para mudar. Drasticamente. Read more
Poderes Ocultos – Capítulo Um: Sangue Novo
by Joder Filho
Quando Susana acordou aquela manhã, tudo estava calmo – exceto por Diná, sua enfermeira, que entrou sem avisar no quarto e saiu abrindo as cortinas. Era sábado e caía uma chuva fina e gostosa lá fora, daquelas que dá vontade de ficar na cama até o dia acabar de novo.
Naquele sábado, em especial, Susana não poderia dormir até mais tarde. Era seu aniversário e seu pai viria vê-la. Eram raras as ocasiões em que ele aparecia e nunca ficava muito tempo. Ela achava que o ambiente hospitalar o incomodava. Não agüentava ficar ali mais do que uma hora ou duas. Ela também não gostava no começo, mas, depois de semanas no tratamento contra o câncer, já se acostumara. Além do mais, todos ali eram gentis e lhe serviam como uma segunda família. Read more



























