#Microcontos: “Artificial”

Artificial

A cada novo amanhecer, a mesma rotina. Montava-se aos poucos diante do espelho. Primeiro, vestia os olhos congelados e o sorriso incolor de todos os dias. Depois, apressava-se a esconder o rosto triste atrás da velha e gasta máscara de satisfação. Enfim, fantasia completa, já podia voltar à sua vida feita de isopor.

#Microcontos: “Fé”

Durante a juventude, Amarildo ajudava pessoas a subirem na vida. Ensinava-os alguma profissão, empurrava-os para uma nova realidade e não exigia nada em troca. Agora, velho e enfermo, não há ninguém que segure suas mãos cansadas ou que lhe retribua os favores prestados. Solitário, Amarildo escreve o epitáfio que deseja em seu túmulo: “É preciso muita fé para ter fé na humanidade”.

#Microcontos: “Acaso”

Acaso

Saiu de casa cinco minutos atrasado, tropeçou na soleira da porta e perdeu a hora do embarque. Deu graças a Deus duas horas depois, minutos antes do vôo seguinte, quando ouviu a notícia anunciada pelos auto-falantes do saguão: o avião sem ele caíra, em chamas, há poucos minutos.

#Microcontos: “Negócio de Fé”

Negócio de Fé

Encontrou a fonte. Tinha nas mãos as respostas para todos os males da humanidade. Agora, só faltava estipular os preços…

#Microcontos: “Labor Diário”

Labor Diário

Morria todos os dias para sobreviver.

#Microcontos: “Engano”

Engano

Achou que encontraria a alegria definitiva entre as paredes concretas da religião. Triste engano. Nos olhos dos correligionários, só a mesma rigidez dos muros.

#Microcontos: “Anúncio”

Anúncio

Nos classificados: Aluga-se coração desiludido.

#Microcontos: “Última Chance”

Última Chance

Naquela noite pediria perdão. Redimir-se-ia do erro e voltaria a falar com o pai depois de oito anos de silêncio. Chegou ao hospital atrasado, o velho falecera há poucos minutos.

#Microcontos: “Recamo”

Recamo

Bordava a vida com imensa cautela para não perder o ponto outra vez.

#Microcontos: “Vírus”


Vírus

Diante dos olhos do rapaz, uma enorme lista. Nela, todos os seus defeitos, um debaixo do outro, devidamente enumerados em ordem alfabética. Arrogante, briguento, covarde, desatento, explorador, falador, grosseiro, hostil e muito, muito mais. Embasbacado, tentou dar jeito na vida: apertou o delete, nada. Ctrl+Z, talvez… nenhuma reação. Em ato de desespero, Ctrl+Alt+Del. Estava imediatamente de volta ao ventre da mãe.