As Crônicas do Fim – Episódio 10: “Azul”

by Gustavo Guilherme

Antes que pudesse verificar a origem do disparo, notei que o monstrengo fora baleado na testa, em cheio, e agora seu corpanzil aniquilado despencava em minha direção.

Numa tentativa insana de me desviar da aberração, tropecei no ogro gordo e caí. Meu queixo encontrou o chão com um impacto que me deixou tonto. Atordoado, escutei um segundo tiro e o barulho deste agravou minha confusão. Eu estava afoito, patético como uma barata em fuga. Se não me concentrasse, o monstro logo me esmagaria.

Rastejei depressa para algum canto da sala, de olhos fechados e gemendo. E assim que minhas mãos tocaram uma parede nojenta coberta de lodo, sangue e pedaços de carne humana, me encolhi como uma criança medrosa. O Agente gigantesco caiu baleado a poucos centímetros de minhas pernas, causando um estrondo ensurdecedor na sala e levantando uma espessa camada negra de poeira.

Esperei alguns instantes antes de suspirar aliviado. Só então, ainda trêmulo e um pouco desnorteado, consegui virar os olhos na direção de quem fora o responsável pelos disparos. De pé na porta, um homem vestia-se com o mesmo indumento dos Agentes, mas sem a máscara de gás, aparentava ter a minha idade, exibia longos cabelos negros e era incrivelmente alto. Sua pele tinha um estranho tom esverdeado e, em suas mãos, uma velha Winshester 44 exalava um fio tênue de fumaça cinza. Read more

As Crônicas do Fim – Episódio 09: “O Parasita”

by Gustavo Guilherme

Nossa única chance de escapar ilesos daquele lugar era passando pela sala macabra.

A câmara era circular de paredes escuras, contraste intenso ao restante do edifício com suas paredes alvas e limpas. O teto ogival abrigava, além das correntes de tortura, dois pares de lustres cujas poucas lâmpadas eram incapazes de iluminar bem o ambiente. O odor era insuportável, mesmo por trás da máscara.

Madalo olhava para mim e eu conseguia ouvir sua respiração ofegante. Ele levantou uma das mãos devagar, apontando-a pra frente, indicando que nossa missão era prosseguir.

Dei o primeiro passo e um dos monstros, agachado no meio da sala, rosnou. Encarei sua feição bizarra: o ser era esquelético, sua pele desprendia-se do que outrora fora um rosto e parte de seu crânio estava à mostra. Os dentes eram cinza, exceto em alguns cantos avermelhados onde ainda havia pedaços de carne humana, provavelmente restos da última refeição.

Parei, tentando não demonstrar irritação ou qualquer resposta à manifestação do Agente. Voltei meus olhos para Madalo, que ainda permanecia imóvel ao meu lado.

Experimentei o segundo passo e, desta vez, não houve rosnado, rugido ou qualquer outro som além do barulho da respiração de Madalo, era possível ouvi-lo a muitos metros de distância. Madalo não estava bem. Eu o encarei, esperando que ele me desse algum sinal, algo que me indicasse o que fazer. Mas meu parceiro não se moveu.

Endireitei-me lentamente, aplicando um terceiro passo que foi imediatamente seguido por outro monstro, um tipo um pouco mais gordo, mas igualmente devastado. Sem pele no rosto e coberto de larvas e insetos da cabeça aos pés. Músculos, gordura e esqueleto eram visíveis e, na altura do abdômen, parte de suas entranhas saíam de uma abertura mediana feita por algum ferimento grave. Este Agente, ao ver minha movimentação, moveu-se exatamente como eu. Read more

As Crônicas do Fim – Episódio 08: “Labirinto”

by Gustavo Guilherme

Meu corpo exalava adrenalina enquanto meu coração ansioso dançava em ritmos frenéticos dentro do peito.

– Lazarus – Madalo me dava instruções de sobrevivência pouco antes de vestir a máscara –, ande devagar e um pouco encurvado para frente, não faça barulho e não diga nada em hipótese alguma.

A bizarra sabedoria de Madalo me intrigava, mas o tempo das indagações chegaria em breve. Concordei com ele, notando novas sensações percorrerem meu corpo.

A escassez de água, a guerra, a vida que fui forçado a deixar para trás, os mistérios de um passado longínquo, nada mais me preocupava. Já não me importava com possíveis conseqüências à nossa investida de fuga, ou com a possibilidade de falharmos em nosso plano. Tensão e medo não me amedrontavam mais. Todo o desespero e incerteza de antes se transformaram em esperança.

Em meu peito, a pequena placa: “Amitab Geradict. Matrícula 1308/2038 – Sessão Damacom, Projeto Carpe Morti” – a estranha identificação que outrora pertencera a um monstro era agora meu disfarce, meu passaporte para fora daquelas paredes.

Madalo e eu havíamos colocado os corpos desacordados dos Agentes sobre os leitos e agora caminhávamos silenciosos pelos corredores do misterioso prédio. Deixamos para trás a porta do quarto fechada, devidamente trancada com as chaves que roubamos juntamente com os uniformes.

Atrás da máscara, quando já nos esgueirávamos pelos corredores do edifício, meus olhos enxergavam paredes muito brancas. A botina que envolvia meus pés pisava firme sobre o piso igualmente alvo e surpreendentemente limpo.

Resgatei da mente as hipóteses que havia formado sobre aquele lugar. Poderíamos estar fugindo de um manicômio, de um hospital, de uma base militar ou até mesmo de alguma tribo que se formara naquele estranho lugar. Passávamos por outras portas e, às vezes, cruzávamos com outras duplas de Agentes que, por sua vez, não nos cumprimentavam, passando por nós como se não nos notassem. Um pouco corcundas, andavam obstinados, mas com lentidão. Não emitiam sons além daqueles provenientes de seus passos e da respiração difícil por trás das máscaras. Pareciam fantasmas, robôs ou… zumbis. Read more

As Crônicas do Fim – Episódio 07: “Carpe Morti”

by Gustavo Guilherme

O ácido, o corpo e a proximidade do perigo. Tudo me envolvia no caos.

Pernas trêmulas e o frio espantoso das mãos, o pulsar acelerado no peito, a velocidade da imaginação a considerar possíveis conseqüências caso falhássemos, sensações que se agitavam dentro de mim. Qual seria minha sentença caso me pegassem? Qual seria o preço a pagar pela morte do tal Homem-sem-nome? As questões me perturbaram por alguns instantes.

O sorriso ousado de Madalo, exposto em sua face pálida como se fosse uma cicatriz de seu sarcasmo, aumentava ainda mais minha preocupação. O simples som da palavra “improvisar”, pronunciada por ele há poucos minutos, me causara arrepios. Entretanto, a esperança de fugir dali e descobrir o que realmente estava acontecendo me tranqüilizava aos poucos.

Observei mais uma vez o que ainda sobrava dos restos apodrecidos de minha vítima sem nome, cacos de vidro misturados a pedaços queimados de tecido humano e muito sangue. O odor da morte é enlouquecedor e ainda mais terrível quando envolve ácido e carne humana. Minha cabeça doía, e a culpa era daquele maldito fedor.

– Preparado, Lazarus? – a voz de Madalo parecia divertida e a feição de seu rosto era como a de um caçador que se prepara para agarrar a caça, matá-la com as próprias mãos e, assim que for conveniente, comê-la.

Não respondi a pergunta. Simplesmente o encarei, olho no olho. E então houve um breve e tenebroso silêncio. Pude ouvir minha respiração e, com ela, a quietude que precede a batalha.

Madalo caminhou calado e se posicionou próximo à porta, ficaria atrás de nossos alvos assim que ela se fechasse. Eu o acompanhei.

– Assim que a porta se abrir e o primeiro Agente entrar, eu o atacarei. – sussurrou Madalo – Enquanto isso, você cuida do segundo homem… Mas não se esqueça de fechar a porta.

– E se forem mais de dois, Madalo? – perguntei.

– Serão dois.

Sua certeza não me confortava. Pelo contrário, me intrigava. Como ele poderia estar tão certo que apenas dois homens entrariam na sala? Por que os chamava de Agentes? Por que parecia estar tão confortável naquela situação de risco? Apesar das dúvidas, aquele não era o melhor momento para saná-las.

E então, quando novas questões eram levantadas em minha mente, a porta se abriu devagar.

Madalo esperou paciente até que o primeiro Agente se afastasse um pouco da porta e o atacou, agarrando-o pelo pescoço com uma chave de braço. O Agente, porém, usou o peso de seu próprio corpo em seu favor, inclinando-se contra Madalo, levando ambos ao chão. Poucos segundos depois, meu alvo entrava no quarto.

Ambos Agentes usavam roupas brancas e longas como as de um enfermeiro; calçavam botinas igualmente alvas e, estranhamente, vestiam máscaras de gás avermelhadas que encobriam seus rostos. Das mãos do primeiro homem, um molho de chaves voou para debaixo de um dos leitos assim que este fora atacado por meu parceiro.

Assim que notou a investida de Madalo, o segundo Agente tentou escapar, mas consegui segurá-lo a tempo, agarrando-me à sua roupa e arremessando-o violentamente contra a porta, que se fechou com violência. Meu rival estava no chão, mas ainda não me parecia inconsciente. Com fúria, ergui o segundo Agente pelos braços e pressionei seu corpo contra a parede, apertando seu pescoço com minha destra.

Naquele momento, uma constatação me surpreendeu. Algo em mim se transformara por completo. A brutalidade de meus golpes não me assustava, até me sentia confortável com a agressividade da cena que se formava diante de meus olhos. Meu coração, outrora acelerado e aflito, batia cadenciado e calmo. A tremedeira de minhas pernas dera lugar à firmeza dos ossos e a respiração débil era agora uma seqüência de longos e tranqüilos suspiros. Em contrapartida, minhas mãos se fechavam com imensa fúria ao redor do pescoço de meu adversário que, a essa altura do embate, já não se defendia.

Mesmo sem saber dizer o motivo, eu me sentia bem. Contemplar a agonia da vítima aprisionada em meu golpe certeiro me causava júbilo. Mas, apesar da satisfação que me contagiava, tinha a sensação de estar sendo dominado por outro alguém, um Lazarus diferente. Outro eu. Um parasita. E se não fosse a interferência imediata de Madalo que, tendo cumprido sua parte do plano, apareceu para acalmar meu ímpeto assassino, teria matado aquele homem. E, se isso tivesse acontecido, o tal Agente teria sido minha segunda vítima mortal em menos de uma hora. Read more

#ACdF: Aviso de adiamento – ATUALIZADO

Desculpem o transtorno.

Sei que um novo episódio de “As Crônicas do Fim” estava programado para ir ao ar hoje, mas infelizmente teremos que adiar para amanhã. As coisas estão corridas e a vida, atarefada.

Amanhã à tarde, sem mais adiamentos, episódio 7 de #ACdF aqui no T-7!

@gustavogui

 

UPDATE

Buenas, gurizada!

O novo episódio está pronto, mas ainda precisa de revisão. E, como hoje é sábado, dia de relaxar e curtir a família, é inevitável que adiemos a publicação para segunda-feira. Mas não se preocupem, o atraso será compensado (vão reconhecer isso – ou não – assim que virem o tamanho do capítulo que está por vir – rsrs). Mais uma vez, desculpem o transtorno.

Carpe Morti!

As Crônicas do Fim – Episódio 06: “Plano de Fuga”

by Gustavo Guilherme

Madalo me encarava sorridente enquanto o corpo do Homem-sem-nome derretia aos poucos bem diante de nossos olhos.

– Parabéns… – seu sorriso se desfez como um vulto – …imbecil.

– Como é? – ainda sentia o peito batucar acelerado e a respiração falhar – Você me chamou de…

Madalo completou minha indagação.

– Imbecil!

Apesar de tecer respostas em minha mente, meus lábios nada disseram. Os olhos de Madalo, que há poucos segundos me aplaudia, aparentemente feliz ou satisfeito, agora eram severos, sisudos, e me fitavam com alguma ansiedade que, em alguns instantes, eu passaria a conhecer.

Madalo agora andava em volta de si mesmo.

– Em poucos minutos esta sala estará cheia de Agentes – a expressão me fez soluçar – Virão depressa para a ronda diária. Quando entrarem por aquela porta, encontrarão um homem morto e podre no chão e, provavelmente, tentarão dar um jeito em você… e em mim também, é claro.

Ele parou por alguns segundos, olhando o vazio. Sussurrou pensamentos, gesticulando-os no ar. O rosto pálido em contraste ao vermelho da barba e dos cabelos dava a Madalo a aparência de juventude, mas sua voz era calma como a de um sábio. Ele parou de repente e um novo sorriso rasgou-lhe a face devagar. Ele deu dois passos silenciosos em minha direção e pude ver algum tipo besta de esperança em seus olhos.

– É nossa chance.

– Nossa chance de que? – indaguei.

– Fugir, seu imbecil. Cair fora, nos mandar desse inferno. Read more

As Crônicas do Fim – Episódio 05: “A Testemunha”

by Gustavo Guilherme

Na imagem refletida no espelho, o homem apertava meu pescoço com uma chave de braço.

Durante os últimos minutos antes da agressão, minha mente se aplicara a criar teorias relacionadas àquele lugar. Imaginava outros tempos, relembrando a velha Minos e associando aquele local onde despertara com o antigo hospital da cidade – esta hipótese era a mais provável. Considerava também a possibilidade de não estar mais em Minos, de ter sido resgatado por alguma tribo ou, talvez, ser vítima de algum seqüestro. Talvez algum líder precisasse de novos escravos para manter sua cidade-governo funcionando, para sustentar seu pequeno reino particular. Ou talvez algum exército, na ânsia cega de vencer a guerra, tivesse me raptado para me transformar em soldado.

Meu pensamento tecia novas teorias e imaginava novas possibilidades quando o homem me atacou.

Assustado, tentei fugir do golpe. O homem, porém, apertou ainda mais a arma dos braços ao redor de meu pescoço, e seu rosto adotou um tom avermelhado, raivoso. No espelho, somente parte de sua face era visível. Meneei a cabeça e experimentei cotoveladas em seu estômago, mas ele pareceu não sentir nada. Enquanto me movimentava loucamente, sua investida inabalável começava a me enfraquecer. Minha garganta começou a doer. Sem muitas opções, decidi tentar uma nova defesa. Com a força que ainda me restava, acertei uma primeira cabeçada em seu queixo e o homem tremeu, emitindo um estranho gemido. Investi o segundo golpe e, desta vez, o Homem-sem-nome afrouxou a chave de braço, me empurrando com força contra o espelho.

Uma tosse grave e rouca fugiu de meus lábios. Read more

As Crônicas do Fim – Episódio 04: “O Selo”

by Gustavo Guilherme

A grande escassez faz suas vítimas. Mas ainda há quem tire proveito do caos.

Além de centralizar o poder em metrópoles dominadas pelo governo, a falta de água trouxe à tona algumas doenças e floresceu ainda mais a crueldade dos homens que, em busca de sobrevivência, se tornaram capazes de cometer quaisquer atrocidades e se submeter a situações absurdas em troca de água potável, comida e segurança, mesmo que falsa. Estes mesmos homens acabaram se tornando escravos de seus líderes políticos. Senhores das terras ainda férteis, os governantes submetem o povo a barbáries indescritíveis, escravizaram famílias inteiras, tomaram filhas e filhos da plebe como amantes, capangas ou serviçais de suas mansões.

Não há esperança longe das tribos. Além dos esconderijos, não há humanidade. Ironicamente, onde ainda há água e alimento saudáveis, não existe alegria.

A nossa atmosfera tornou-se densa e respirar é quase sempre um sacrifício, por isso, o índice de câncer de pele subiu vertiginosamente nos últimos seis anos – os mais quentes que esta terra já conheceu. Sem hortaliças, vegetais e frutas à disposição da população comum, o que mais se vê entre os refugiados das tribos são pessoas doentes, moribundas e desesperadas. Os mais afetados pelo calor são as crianças e os idosos. Os velhos, pela fraqueza da idade, morrem rápido. Os pequeninos, entretanto, são naturalmente mais resistentes, demoram a morrer. Na esperança de viver, abraçam a dor como se esta fosse uma velha amiga.

Nas cidades-governo, a população recebe uma porção diária de comida e água, mas ali já não há motivos para lutar por sobrevivência. Todos os dias, tais cidades adormecem cobertas de dezenas de novos defuntos, e acordam com uma nova centena de vítimas das doenças de nossos tempos. Por isso, as tribos se tornaram local de caça. Governantes enviam seus homens para capturar e escravizar fugitivos ou até mesmo sequestrar tribos inteiras, quando possível, só para preencher as vagas deixadas por seus mortos.

Ouvi histórias terríveis sobre a Nova Manipulação – este é o nome que as tribos deram a administração deste governo cruel. Quero acreditar que a maioria delas não passa de fábulas tenebrosas sobre torturas físicas e psicológicas, crimes bárbaros e regimes desumanos de liderança forçada.

Uma visão me atormenta todas as noites. Um sonho que me faz despertar suado e geralmente aos berros: uma menina de aproximadamente seis anos de idade, coberta de sangue e sem uma parte dos membros inferiores. Ela se arrasta pelo chão e me pede socorro. Ela me implora piedade e pede que eu a salve do sofrimento. Ela quer que eu a mate.

Atordoado, despertei. Read more

As Crônicas do Fim – Episódio 03: “Lazarus” (Parte 3)

 

by Gustavo Guilherme

A sombra de um rosto, uma luz trêmula e vozes. Depois disso, minha mente voltava às sombras e aos pesadelos feitos de lembranças… Ou do que restou delas.

Enquanto inconsciente, após ser salvo das garras do lobo, recordações de minha infância montaram peças de um quebra-cabeça sem sentido em minha mente. Entre sonhos e memórias, às vezes abria os olhos, mas logo desmaiava outra vez.

Apagado, vi de repente um menino correr e cair à beira da Estrada 692, que antigamente interligava Ancor e Galed, duas nações que passariam a se odiar durante a Grande Guerra. O menino levava consigo um bebê. Sangue e lágrimas escorriam dos olhos do garoto, que insistia em acalentar a criança chorosa em seu colo. A imagem se desfez repentinamente, contorcendo-se e apagando, como em um filme antigo.

Da escuridão, uma nova lembrança emergia em vermelho. Um casal me olhava sorridente, com embrulhos nas mãos. Ao lado deles, um pequeno pinheiro decorado com enfeites natalinos. A mulher era morena, olhos castanhos e dentes muito brancos. Não podia ver seu vestido, pois este estava embaçado pela visão turva do sonho, mas pude notar algumas palavras estranhas, talvez escritas em outra língua, tatuadas em seu braço assim que ela me estendeu o presente. Ao seu lado, um homem barbudo sorria com dentes amarelos. Tinha um olhar cansado e rugas espalhadas no rosto. Ele também tinha algo impresso em seu braço, mas não pude ver o que era. Esta imagem também se esvaiu depressa, como fumaça.

Uma nova visão escura e quente apareceu.

Era, outra vez, o garoto com um bebê. Desta vez, entretanto, eu estava lá, em pé ao seu lado, com a mão direita estendida, oferecendo ajuda. Ele me encarou e pude ver uma linha de sangue escorrer de seus pequenos olhos e rabiscar seu rosto pálido. Ele fitou o bebê, pronunciou palavras que não pude compreender e estendeu-me a destra tremente. Assim que o menino tocou minha mão, ele desapareceu e a criança em seu colo espatifou-se no chão, gritando de dor logo em seguida. Assustado, encurvei-me depressa para socorrer a pobre criança. Toquei o manto no qual ele estava envolto e, cuidadosamente, descobri sua cabeça… Apavorado, gritei. O bebê transformara-se em um monstro com dentes afiados e olhos vermelhos, faminto e violento, pronto para devorar qualquer coisa que cruzasse o seu caminho.

Acordei. Read more

As Crônicas do Fim – Episódio 02: “Lazarus” (Parte 2)

by Gustavo Guilherme

Recordo-me vagamente de algumas histórias fantásticas que costumava ouvir quando criança. Eram contos sobre heróis audaciosos que pelejavam a favor de seus ideais, mesmo que isso lhes custasse, no fim, a vida. Geralmente, tais enredos se passavam em “mundos esquecidos pelos deuses” e, inúmeras vezes, tinham finais felizes. Nós, entretanto, não temos heróis. Nosso mundo foi esquecido, mas não por algum deus irado e ciumento. Nossa terra foi abandonada por nós mesmos. Somos seus guardiões e, também, seus executores.

A escassez de água potável na Terra foi responsabilidade nossa. Poluímos tudo que podíamos. Em busca de riquezas naturais que satisfizessem as nossas necessidades fúteis, destruímos a maior delas. A água tornou-se impura na maior parte do planeta e o mundo adoeceu. Hoje, o único lugar onde se pode encontrar “água saudável” é nas cidades que foram ocupadas pelo governo, que agora tem nas mãos as respostas para todas as enfermidades sociais, econômicas e políticas da Terra.

***

Em poucas horas, meus pés reencontraram Minos. Atravessei o portal de entrada da cidade depois de ler a placa de boas-vindas, ironicamente intacta.

Em outros tempos, Minos estaria repleta de crianças sorridentes a correr pelas ruas. Seus pais, atenciosos e educados, provavelmente estariam por perto, cuidando de seus filhos com cautela e dedicação. Os becos mais sombrios da velha cidade estariam devidamente iluminados, as ruelas limpas e as calçadas cheias de gente. Minos era um dos lugares mais venerados do continente. A bela praia, ponto turístico da cidade, vivia cheia de surfistas e gente de toda a parte. Os prédios eram altos e quase sempre rústicos em algum aspecto. As casas tinham o formato padrão de toda grande metrópole pertencente ao conglomerado de cidades que chamamos de Ancor, eram quase todas grandes mansões cobertas por telhados coloridos e pintadas por fora de um azul claríssimo. Por dentro, as mansões eram mais comuns do que se podia imaginar: dois quartos, cozinha, dois banheiros, sala de estar e um quintal geralmente grande o suficiente para dar festas e reunir amigos nos fins de semana.

Minos era ímpar! E as famílias que ali moravam não seriam capazes de imaginar a bela cidade convertida em desgraça, poeira e destruição, como meus olhos constatavam agora. A plenitude urbana, sinônimo de organização e conforto, era agora o perigeu das metrópoles, a vergonha de Ancor. Read more

  • Page 1 of 2
  • 1
  • 2
  • >